História
em esmolas
Quando
aqui chegaram, os portugueses traziam bugigangas para oferecer aos índios.
Desde então, a história do Brasil é uma história de esmolas dos poderosos para
os humildes.
Ao
mesmo tempo em que matavam os índios, os colonizadores distribuíam esmolas para
eles.
A
independência também foi uma esmola: no lugar de um presidente brasileiro,
eleito por nosso povo, tivemos um imperador, filho do rei da metrópole.
A
libertação dos escravos foi incompleta como uma esmola: não distribuíram as
terras, não colocaram seus filhos na escola. Deram-lhes uma esmola de
liberdade.
Nossa
república foi proclamada, mas de um modo insuficiente, como uma esmola. Foi proclamada,
não constituída. Para proclamá-la, bastou um marechal, em cima de um cavalo,
com sua espada, em um dia de novembro no Rio de Janeiro, mas para construí-la
são necessários milhões de professores, em dezenas de milhares de escolas
espalhadas por todo o território, durante muitas décadas.
BUARQUE,
Cristovam. Os instrangeiros. Rio de Janeiro: Garamond, 2002. Fragmento.